A RTP dava futebol. A SIC deu a tragédia de viação em directo, em diferido e em repetido (deram a notícia de ontem, do mesmo telejornal!). Quando já todos os aspectos da mágoa alheia estavam espremidos, e foram obrigados a dar outras notícias (estavam a competir apenas com a TVI, a fasquia era... inexistente) então lá mostraram o sr. Lopes e o sr. Pinto de Sousa à frente das respectivas opostas bancadas a discutir, não o orçamento do país, mas o passado de ambos. Foi bom para manter o tom trágico do telejornal. Mais espantoso que aquela sala ter sido pequena demais para ambos, é que em duas pessoas tão pequenas caibam egos tão grandes. A sala essa, é realmente pequena mas ainda disfarça na televisão, os outros dois não enganam ninguém.
A propósito do caso Maddie, e muito embora se reconheça a possibilidade de a PJ e o Ministério Público comunicarem melhor sem comprometer o segredo de justiça, tenho ouvido suficientes vezes o argumento segundo o qual o público deve ser informado do andamento da investigação policial, independentemente dessa revelação vir ou não a prejudicar o desenrolar da investigação. «As pessoas não podem ser mantidas nesta ignorância», «é uma falta de respeito», «as pessoas têm o direito de saber», exclama-se. Não, não têm! Não têm o direito de saber coisíssima nenhuma. Podem estar milhões de sedados espectadores colados aos seus altares do entretenimento passivo (TV) a clamar por mais sumo para as suas não-vidas, que, se estiver em causa um milímetro da investigação que seja, hão-de continuar na ignorância. É assim que deve ser.
Ou então declaramos oficialmente a mediocracia, e voltamos à idade... média.
«A imagem chocante de dois assessores do Presidente Lula da Silva a manifestarem gestualmente a sua satisfação por uma notícia que responsabilizava a companhia de aviação pela tragédia de do aeroporto de Cangonhas em S. Paulo, é um preocupante sinal dos tempos. Não tanto pela baixeza do carácter revelado por aquelas duas criaturas que se regozijavam pela desresponsabilização do Governo ao manter em funcionamento um aeroporto sem condições de segurança e se mostravam insensíveis ao horror de tantas vidas perdidas. Mas sobretudo porque aquele comportamento de pessoas próximas do núcleo do poder central brasileiro, mostra como a governação é orientada não pelas preocupações de prosseguir o bem comum, mas pela obsessão, por vezes extrema, de passar bem na opinião publicada.»
Com a ressalva de não acompanhar regularmente as intricadas teias da política Brasileira, não vejo aqui nada de substantivo que possa ofender ou chocar quem quer que seja. Apenas vejo, talvez, matéria para os desportistas da caça à gaffe, ao deslize, profissionais da indignação politicamente correcta exorcizarem novamente os seus fantasmas.
É naturalíssimo que o assessor esteja preocupado com a imagem mediática, sobretudo se for assessor de imprensa: é o trabalho dele. Isso não significa que o presidente ou a alta esfera política descure o bem comum em favor dessa imagem.
Se de facto havia uma tese de responsabilização do Governo pelo acidente aéreo (o que por si só já é algo retorcido) é perfeitamente aceitável, natural que haja um gesto de satisfação ao ver essa tese refutada. E o gesto não me pareceu propriamente duma alegria esfuziante ao ponto de ofender a memória dos que perderam a vida.
Insinuá-lo é em si uma ofensa, no mínimo precipitada, em relação aos visados.
Esta gente da SIDES é realmente inteligente. Então não é que eles apelidaram de bombástico aquilo que viria a sê-lo justamente por não o ser? Espertos que nem um alho, estes rapazolas. Eloquentes, pá.
É realmente bombástico algo que era suposto sê-lo não o ser. Com dois adiamentos. Com um comunicado lido. Com respostas lacónicas. Num estilo blasé de quem nada deve, menos ainda teme, nada prometeu e indaga sequer se terá alguma coisa a ver com o reboliço.
Agora começo a ficar preocupado. Pelos métodos, não pela substância, que, repito, é completamente espúria.
Dois dias depois: Se calhar quem caiu na ratoeira fui eu. Nunca saberei, cheira-me.
A propósito da peça de desinformação que passou na RTP no passado Domingo, sobre o uso (e abuso) da Cannabis, no que toca à possibilidade de aumento do risco de esquizofrenia, (supostamente) no seguimento dum estudo da The Lancet, recomendo a leitura disto (vejam o vídeo lá linkado), do próprio estudo, se possível, e do restante material da própria revista. Tais leituras certamente desintoxicarão o leitor do ácido fóbico instilado — num estilo bastante Louçã, diga-se — pelo inominável e inefável Manuel Pinto Coelho, que novamente apareceu a defender que droga é só uma, não há cá leves e duras.
É que, nem o próprio estudo autoriza as atoardas lançadas na peça, como o restante material da revista (para não falar do consenso médico) contradizem qualquer ideia de unificação do conceito de droga, já de si muito pouco científico. Tal entidade una e indivisível, daria certamente jeito a MPC: um papão facilmente agitável, servindo de encarnação dos males da sociedade, qual manifestação demoníaca. Algo a esconjurar e debelar a qualquer custo, o mais depressa possível, a bem duma nação Livre de Drogas (certamente graças ao desinteressado apoio das suas clínicas privadas).
Acontece a realidade é um bocadinho menos assustadora, e bem mais complexa. Temos pena.
Ontem vi uma repetição de mais um «Diga Lá, Excelência». José Manuel Fernandes e Raquel Abecasis (e não Graça Franco como escrito anteriormente) entrevistavam Alberto Costa. Não vou falar do conteúdo nem de Costa, vou falar da forma.
Estas entrevistas andam sofríveis. Sem ritmo, sem graça, sem brilho. Os entrevistadores atropelam-se, não sabem o que hão-de perguntar ou quando perguntar, perguntam coisas já respondidas, não deixam o entrevistado falar... enfim, uma nódoa. É aliás o entrevistado que normalmente salva o programa, com um ou outro rasgo ao sucumbir ora à enervante presunção de ter sempre a pergunta fatal de RA, ora ao lento elaborar de complexas estruturas interrogativas (cuja espremedura resultaria numa pergunta simples) que se prolongam adentro da resposta em metástases indebeláveis, de JMF, minando de ruído o propósito do programa, que será -- imagina-se -- ouvir as excelências.
JMF não é mau. Eu sei que não, mas -- talvez por cansaço, tem cara disso -- a sua participação no programa é confrangedora. Demora vinte segundos a perguntar algo que a partir dos cinco, toda a gente percebeu o que é. Insiste na mesma pergunta quando podia explorar novo lado da questão depois da resposta do entrevistado, tem falhas de discurso, lapsos de memória... Fariam-lhe bem duas horinhas de descanso antes do programa. Ou então passar "a pasta" de novo à Joana Ferreira da Costa, que tão bem conta do recado deu anteriormente. Quanto à RA, julgo que o melhor mesmo era substituí-la. Há ali uma sede de protagonismo, um afunilamento da realidade a uma simples apreciação de carácter estético-novelesco, um desejo implícito de confrontação moral (lembra Ana Gomes), uma plena aculturação ao imediatismo da selva mediática, que não se resolvem com uma sesta.
Vi os dois Prós&Contras do aborto. Sorvi avidamente aquilo tudo, por várias razões. De uma forma geral gostei, mas há sempre coisinhas que nos desassossegam e outras que nos agradam, e é justamente sobre isso que me interessa aqui escrever.
A primeira impressão, já habitué dos debates públicos, é a tendência para reduzir o debate duma troca racional de argumentos a uma luta (muitas vezes desonesta) entre dois lados da barricada. O nosso lado, Vs. o outro, sempre. Claro que neste referendo há apenas dois lados, é certo, mas a verdade, assim como cada argumento, vale por si e não depende de quem a defende. Mesmo pessoas insuspeitas, com "bagagem" intelectual (seja lá o que isso for), incorrem frequentemente no erro de apenas argumentar no que respeita à legitimidade moral de um dos lados da barricada.
Lembro-me, por exemplo da intervenção do António Pinto Leite, no segundo debate dizendo-se da ala mais moderada do Não, com um estilo honesto e conciliador. Centrou a sua argumentação apenas em juízos éticos sobre os comportamentos no passado dos dois lados da barricada! Qualquer coisa como "quem eu vi fazer alguma coisa pelas mulheres, foram os do Não". A meio da intervenção ainda disse que não era "por aí" que queria ir, mas a verdade é que esse era o único argumento descortinável nas suas palavras e tanto que era, que mais tarde foi repetido. Obviamente, argumentos do género "A defende X, B defende Y. Como A tem melhor reputação, prefiro X" só podem ser usados quando não há mais informação disponível, e muito menos devem ser invocados numa discussão racional, mas enfim.
A outra degenerescência comum nestes debates é enveredar por caminhos de pura apreciação estética, uma espécie de argumentação impressionista, muito evocativa de sentimentos conexos, mas sem qualquer espécie de suporte racional. Lembro-me da intervenção dum jovem, já visivelmente cansado e sem grande clareza no discurso fazer uma intervenção em que quase teatralizava todo o debate, cheio de adjectivos, algo artístico, um pouco ridículo, na minha opinião, mas sem sombra de racionalismo crítico. "Nós somos do Não. E o Sim insiste! Nós não queremos." ouviu-se-lhe umas quantas vezes, em tom dramático. Fez-me pena. E pena faz-me não ter o vídeo disso.
Os painéis: Rui Pereira e Heloísa Santos estiveram muito bem. Heloísa leva tudo à frente, e não deixa pedra sobre pedra, e Rui Pereira não perde um fio entre pensamentos, e consegue exprimi-los impecavelmente. O painel do Não foi, em parte, risível. Adorei a parte em que o cirurgião Manuel Antunes ficou confundido com as perguntas de Rui Pereira. Assunção Cristas tem uma presença muito simpática, mas que se revela artificial, quando o verniz estala. Nada brilhante, vocabulário pobre e ideias pouco articuladas. Aquela manipulação dos números, nos gráficos cor-de-rosa foi duma desonestidade que não esperava, é insultar as pessoas.
Agora as coisas boas. Gostei de ouvir: Vital Moreira, talvez aquele que disse mais vezes as coisas que eu mais queria que fossem ditas; Rui Pereira, com uma energia, clareza e convicção que apreciei; Vera Jardim, uma voz sensata e peremptória; Vasco Rato, desarmante, a colocar as questões no sítio; Daniel Oliveira, embora o estilo não seja o meu preferido, esteve muito bem em várias ocasiões, nomeadamente aquela última em que disse que "A palavra Sim ainda quer dizer sim, a palavra Não ainda quer dizer não e a pergunta fala em despenalização. Despenalização ainda quer dizer despenalização". Ora vede.
De resto, nada me espantou muito. Desiludi-me com algumas pessoas que tinha em melhor conta (Castro Caldas, Anacoreta Correia, Nuno Lobo Antunes, coisas que acontecem) e vi novas caras o que é óptimo. Dum lado, Kátia Guerreiro revelou uma pobreza intelectual confrangedora, que até passaria não fosse a sua irritante embófia (boa palavra, esta). Não deixei de reparar, no final do programa, na sua alegria por ter feito tão "boa figura" num meio social tão desejado. Rosário Carneiro, com toneladas de classe, teceu delicadas considerações de elevadíssimo bom-senso, mas que simplesmente não colhem. Laurinda Alves, que pouco conheço para além da densa e difícil revista Xis, personificou as minhas piores críticas ao lado do Não. Entrevi-lhe, naquela fronte pasmada de boca meio aberta (talvez pela afronta que fosse discutirem com ela), uma intolerânciazinha mesquinha, uma presunção de superioridade moral e uma pobreza de espírito inquietantes, de meter medo. No outro extremo, quase que me apaixonei pela Marta Rebelo. De cara lavada, figura simples e discurso claro, tocou com inteligência em todos os pontos importantes do momento. Usou a sua formação de jurista muito bem, e o seu bom senso e feminilidade fizeram o resto. Inequívoca e educada.
Outro dia reparei nisto. Os três intervenientes da quadratura do círculo correspondem de forma quase cristalina aos três pilares da retórica: ethos, pathos e logos. Lobo Xavier, Jorge Coelho e Pacheco Pereira.