terça-feira, fevereiro 6

O Aborto, redux

Vi os dois Prós&Contras do aborto. Sorvi avidamente aquilo tudo, por várias razões. De uma forma geral gostei, mas há sempre coisinhas que nos desassossegam e outras que nos agradam, e é justamente sobre isso que me interessa aqui escrever.

A primeira impressão, já habitué dos debates públicos, é a tendência para reduzir o debate duma troca racional de argumentos a uma luta (muitas vezes desonesta) entre dois lados da barricada. O nosso lado, Vs. o outro, sempre. Claro que neste referendo apenas dois lados, é certo, mas a verdade, assim como cada argumento, vale por si e não depende de quem a defende. Mesmo pessoas insuspeitas, com "bagagem" intelectual (seja lá o que isso for), incorrem frequentemente no erro de apenas argumentar no que respeita à legitimidade moral de um dos lados da barricada.

Lembro-me, por exemplo da intervenção do António Pinto Leite, no segundo debate dizendo-se da ala mais moderada do Não, com um estilo honesto e conciliador. Centrou a sua argumentação apenas em juízos éticos sobre os comportamentos no passado dos dois lados da barricada! Qualquer coisa como "quem eu vi fazer alguma coisa pelas mulheres, foram os do Não". A meio da intervenção ainda disse que não era "por aí" que queria ir, mas a verdade é que esse era o único argumento descortinável nas suas palavras e tanto que era, que mais tarde foi repetido. Obviamente, argumentos do género "A defende X, B defende Y. Como A tem melhor reputação, prefiro X" só podem ser usados quando não há mais informação disponível, e muito menos devem ser invocados numa discussão racional, mas enfim.

A outra degenerescência comum nestes debates é enveredar por caminhos de pura apreciação estética, uma espécie de argumentação impressionista, muito evocativa de sentimentos conexos, mas sem qualquer espécie de suporte racional. Lembro-me da intervenção dum jovem, já visivelmente cansado e sem grande clareza no discurso fazer uma intervenção em que quase teatralizava todo o debate, cheio de adjectivos, algo artístico, um pouco ridículo, na minha opinião, mas sem sombra de racionalismo crítico. "Nós somos do Não. E o Sim insiste! Nós não queremos." ouviu-se-lhe umas quantas vezes, em tom dramático. Fez-me pena. E pena faz-me não ter o vídeo disso.

Os painéis: Rui Pereira e Heloísa Santos estiveram muito bem. Heloísa leva tudo à frente, e não deixa pedra sobre pedra, e Rui Pereira não perde um fio entre pensamentos, e consegue exprimi-los impecavelmente. O painel do Não foi, em parte, risível. Adorei a parte em que o cirurgião Manuel Antunes ficou confundido com as perguntas de Rui Pereira. Assunção Cristas tem uma presença muito simpática, mas que se revela artificial, quando o verniz estala. Nada brilhante, vocabulário pobre e ideias pouco articuladas. Aquela manipulação dos números, nos gráficos cor-de-rosa foi duma desonestidade que não esperava, é insultar as pessoas.

Agora as coisas boas. Gostei de ouvir: Vital Moreira, talvez aquele que disse mais vezes as coisas que eu mais queria que fossem ditas; Rui Pereira, com uma energia, clareza e convicção que apreciei; Vera Jardim, uma voz sensata e peremptória; Vasco Rato, desarmante, a colocar as questões no sítio; Daniel Oliveira, embora o estilo não seja o meu preferido, esteve muito bem em várias ocasiões, nomeadamente aquela última em que disse que "A palavra Sim ainda quer dizer sim, a palavra Não ainda quer dizer não e a pergunta fala em despenalização. Despenalização ainda quer dizer despenalização". Ora vede.

De resto, nada me espantou muito. Desiludi-me com algumas pessoas que tinha em melhor conta (Castro Caldas, Anacoreta Correia, Nuno Lobo Antunes, coisas que acontecem) e vi novas caras o que é óptimo. Dum lado, Kátia Guerreiro revelou uma pobreza intelectual confrangedora, que até passaria não fosse a sua irritante embófia (boa palavra, esta). Não deixei de reparar, no final do programa, na sua alegria por ter feito tão "boa figura" num meio social tão desejado. Rosário Carneiro, com toneladas de classe, teceu delicadas considerações de elevadíssimo bom-senso, mas que simplesmente não colhem. Laurinda Alves, que pouco conheço para além da densa e difícil revista Xis, personificou as minhas piores críticas ao lado do Não. Entrevi-lhe, naquela fronte pasmada de boca meio aberta (talvez pela afronta que fosse discutirem com ela), uma intolerânciazinha mesquinha, uma presunção de superioridade moral e uma pobreza de espírito inquietantes, de meter medo. No outro extremo, quase que me apaixonei pela Marta Rebelo. De cara lavada, figura simples e discurso claro, tocou com inteligência em todos os pontos importantes do momento. Usou a sua formação de jurista muito bem, e o seu bom senso e feminilidade fizeram o resto. Inequívoca e educada.

Ganhou o Sim, acho. Para mim Sim, claro.

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1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Embora eu não seja alguém que se consiga fazer entender particularmente bem,porque não tenho,definitivamente,o dom da palavra, nem tão pouco sei falar eloquentemente como os senhores do Prós e contras- LOLOLOL!- vou tentar exprimir-me o melhor possível e muiiiiito breve. O tema " Legalização do aborto" deixa-me o estômago completamente embrulhado!!! Ultrapassa-me ver que ainda existe muita gente no meu país que continua a pensar "tão pequenino". A maior parte dos argumentos que oiço pela parte do NÃO, são de uma hipocrisia que raramente acerta no ponto. É que estão sempre ao lado! A questão,para mim, não são os bébés, são as mulheres. Legalmente ou não, os abortos vão continuar a ser feitos. Já que não podemos salvar a vida daquele bébé, não poderemos, ao menos, salvar a vida da mulher que OPTOU por não ter o filho,dando-lhe condições para que o faça em segurança??? Nenhuma mulher faz um aborto de ânimo leve, NENHUMA! Infelizmente, tenho o palpite que a abstinência será, mais uma vez, a grande vencedora do próximo dia 11.Resta-me ter esperança que os gatos fedorentos transformem o Prós e contras sobre a legalização do aborto, em mais um delicioso tesourinho deprimente da RTP.

00:51  

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