segunda-feira, abril 16

Putos no Recreio

É óbvio que há coisas mal contadas na desventura Sócrates-Independente. Admitamos desde já que houve algum favorecimento (light, acredito) ao senhor então Secretário de Estado; admitamos também que, deslumbrado ou por vaidade, cedeu na intimidade do momento do preenchimento da ficha da Assembleia, e escreveu Engenheiro onde deveria em bom rigor ter escrito outra coisa menor; admitamos ainda que recorreu à UnI para ver se "despachava" o curso. Admitamos tudo isto e talvez mais algumas coisas. Não as vamos desculpar, claro que não. Não é uma conduta exemplar, todos vemos isso. A questão é se vamos continuar a insistir no argumento segundo o qual, esta conduta criticável o desqualifica para o cargo.

O sr. Pinto de Sousa fez umas maningânciazinhas como qualquer um de nós poderia ter feito. Se não fosse nos estudos era noutra coisa. Pergunto: temos assim tantas virgens puras e castas neste país com moral para exigir dum primeiro-ministro um comportamento absolutamente irrepreensível, retroactivamente? Eu acho que não, e por conseguinte, acho que há por aí muita, muita hipocrisia.

A metáfora do momento é os putos no recreio quando descobrem um podre dum "colega" que até era popular. É vê-los a salivar pelo espectáculo da sua queda, o regresso na hierarquia social a onde ele deveria sempre ter ficado... Exigem que ele se explique, se humilhe um bocadinho nesse pedaço, não resistindo a espezinhá-lo um pouquito mais perguntando aquilo que já toda a gente percebeu, rezando cada um deles que os seus podres não sejam nunca descobertos. Alguns poucos não os terão, claro.

O problema é que no caso real em apreço, não estamos num recreio, e mais importante, não somos putos. Seremos (pelo menos aqueles a quem me dirijo) eleitores responsáveis, com um mínimo de consciência cívica. E é minha opinião que não devemos deixar que a apreciação estética da personalidade, o enredo novelesco, se sobreponham à avaliação crítica e racional daquilo que é relevante para o bom desempenho do cargo de primeiro ministro. Eu não acho estas matérias relevantes, sinceramente. Descobrem-se, discutem-se esclarecem-se, pronto. Eu não preciso que o meu primeiro ministro seja, aliás, tenha sido sempre, um cidadão absolutamente exemplar de conduta invariavelmente irrepreensível. Um PM não é Deus, é um cidadão, como qualquer outro, que se sujeita às mesmas exigências da sociedade.

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3 Comentários:

Blogger Claricinha disse...

Concordo quando dizes que o PM não é Deus, nem é perfeito, toda a gente comete erros...mas o que "alegadamente" se passa não é um erro, é algo que foi propositado e pensado, não foi um acidente de percurso, e isso não se pode admitir a um PM.

22:33  
Blogger Foka_bock disse...

Se, enquanto cidadão comum, não posso falsificar certificados de competências e/ou sou exposto ao ridículo se me tratarem por Dr. não o sendo, quando se trata do PM deve-se aplicar a mesma regra mas elevada à 10 potência.

14:06  
Blogger Vasco Figueira disse...

Não. Deve aplicar-se a mesma regra, ponto.

18:46  

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