terça-feira, agosto 1

Este blogue

As primeiras linhas são sempre complicadas. A melhor maneira de escapar ao holofote repentino é justamente falar sobre isso, deslizar para o plano da meta-discussão. Fechar os olhos e ver com o olho da mente, partilhando como que desinteressadamente o deambular pelas ideias, enquanto a pupila se recompõe do choque luminoso. Tal escape é compreensível, pois como dizia o outro senhor, não há segundas oportunidades para as primeiras impressões. E assim como quem não quer a coisa, já se construíram alguns andaimes por onde começar, abrigado das apressadas e deficientes interpretações, aquilo que se pretende edificar.

Este blog é um compromisso. Um compromisso entre vários ímpetos opostos que, pelos vistos, só agora consegui resolver. Vejamos de quais deles estou consciente:

  1. No início, não terei sido o único a pensar que a blogoesfera tresandava a pedantaria de pseudo-intelectual. O meu medo não era o de construir um poiso nesse local hostil (a hostilidade arrivista de quem aspira a elevar-se pode raiar o intolerável), mas de me descobrir um deles, o que constituiria um golpe moroso de sarar neste jovem espírito. Hoje em dia percebo-me melhor e a atmosfera dos blogs está mais leve. Ainda assim, resta uma pequenina comichão.

  2. Isto não é um diário. Não escrevo para resolver os meus males, espantar os meus medos, nem para conferir à minha intimidade uma qualquer aura de estrelato público, na esperança das audiências um dia subirem e o meu estado de espírito, diligentemente actualizado, ser conhecido por pessoas que eu não conheço. Escrevo pelas mesmas razões por que leio, pelas mesmas razões por que debato, pelas mesmas razões por que penso.

  3. O Vasco destas linhas é o Vasco público, o cidadão, interesse isso a quem interessar. Claro que as entrelinhas trarão outros "sumos", o que, de inevitável que é, nem tento evitar. E escrevo Vasco porque não gosto da ideia dum alter-ego digital que muitos usam, numa tentativa de distanciamento da personagem criada, para assim lhe conferir mais liberdade do que sequer para si próprios arrogam; mantendo sempre a sua posse, para o que eventualmente convier. A Internet faz parte da realidade e cada um é responsável pelos seus actos. Só assim podemos ser livres.

  4. Um blog obriga a abandonar a plasticidade circunstancial que todos nós gozamos. Para um dado assunto, as abordagens que temos e os ênfases que damos nunca serão iguais. Isso não tem nada de condenável: o carácter e as convicções são estáveis, mas as abordagens e os ênfases são circunstanciais, necessariamente. Escrever neste ambiente desprovido dessa plasticidade, obriga a confiar no leitor, a respeitar a sua inteligência. Eu, quando leio, gosto que o escritor confie no leitor. Tentarei fazer o mesmo.

  5. Toda a gente tem opinião sobre tudo, toda a gente quer falar mesmo que seja para dizer o que já foi dito. Tenho horror ao ruído que resulta de todos falarem sem saber... porquê; pouco ou nada escutando sequer quando retomam fôlego. Tenho pena das palavras esquecidas "não sei" ou do silêncio de quem consente, simplesmente. As palavras devem ser bem tratadas, largadas (não metralhadas) no tempo e na medida certa.
    Sê paciente, espera
    Que a palavra amadureça
    E se desprenda como um fruto
    Ao passar um vento que a mereça
    (Eugénio de Andrade)

Finda a meta-discussão e contidos os eventuais desvios à desejada primeira impressão, agora sim, é altura de começar a escrever.

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